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A “devolução” de crianças adotadas

19 Out

Foi ontem noticiado pelo jornal Correio da Manhã dados do Instituto da Segurança Social referentes aos processos de adoção. Assim, verificou-se que, num período de cinco anos (entre 2005 e 2010), 108 crianças foram devolvidas, doze delas no ano passado e ainda durante a fase de pré-adoção. A notícia aponta que uma das razões para esta “devolução” da criança é a falta de entendimento entre os candidatos e a não correspondência da criança às expectativas dos pais adotivos.

A questão da “devolução” da criança pelos candidatos adotantes é normalmente comentada num tom acusatório ou pejorativo para com estas pessoas que, depois de integrar a criança adotiva no seu agregado familiar concluem que não conseguem exercer a sua parentalidade com aquela criança ou exerce-la de todo. Não quero com esta minha afirmação defender as pessoas que entregam a criança de volta aos serviços, aos centros de acolhimento. Mas também não partilho de uma generalização de sentimentos de revolta ou indignação que comummente assisto, quando esta temática está em discussão.

Vamos por partes: a maior parte das situações em que o processo de adoção fracassa e a criança regressa à instituição de acolhimento onde estava (ou, no caso de a vaga ter já sido preenchida, é colocada numa outra instituição; o que agrava ainda mais a situação), a iniciativa é tomada pelos candidatos adotantes. Mas, outros casos há – menos frequentes, é certo – em que a adoção não vinga porque foi a própria criança que não quis e/ou não interiorizou e acolheu a adoção. Estes casos estão incluídos nos números ontem apresentados, mas deles não se falam. Em adoções de bebés, o processo de vinculação, o processo de aceitação daquele adulto como sendo o seu cuidador, o seu pai/mãe, é um processo que decorre com dificuldades menos acentuadas que em crianças mais crescidas.Como tal, em bebés e crianças de tenra idade torna-se raro que seja a criança a não se adaptar à sua nova vida. É raro, mas já aconteceu!

Em crianças mais crescidas, apesar de ser pouco frequente a não adaptação à adoção, esta acontece. Talvez por motivos semelhantes aos adultos que não se adaptam à criança, talvez por outras razões. O que é certo é que, por umas ou outras razões, esses casos acontecem e por isso mesmo merecem uma reflexão sobre as suas causas.

Falemos agora dos candidatos adotantes que não conseguem que o processo adotivo seja um sucesso. Não vou falar dos candidatos que não querem. Isso é outro artigo, outro assunto. Há candidatos a adotantes que nem sequer o deviam ser, que querem uma criança porque sim, por pressão social ou por outras razões e que, quando confrontados com o exercício da parentalidade, se arrependem e devolvem a criança por razões absurdas, por vezes cruéis, como já ouvimos falar. Esses também os há! Mas desses recuso-me a falar, não dispendo o meu tempo (nem o vosso) com eles.

Quero sim falar dos candidatos adotantes que realmente querem uma criança, um filho. Mas, por razões compreensíveis, não o conseguem adotar no seu íntimo, no seu coração.

Desiluda-se quem pense que uma criança adotada tem um sentimento de gratidão eterno, de que o pai/a mãe são os seus salvadores. Não, nada disso. Esse é um dos motivos que pode originar o insucesso da adoção: esperar que a criança – em particular as mais crescidas – retribua a adoção com harmonia, estabilidade e gratidão.

As crianças, principalmente as mais crescidas, retêm em si memórias, histórias, experiências e uma toda uma vida passada. Elas já tiveram uma mãe, um pai. Foram um fracasso, é certo, mas foram os únicos pais que tiveram e que nem sempre foram “maus”, em determinada altura ou em certos momentos, eles foram “bons pais”. Muitas vezes a criança adotada – mesmo tendo conhecimento e compreendendo que ela é adotada por decisão judicial, porque o juiz quis – assume um sentimento de culpa, ela recusa-se a aceitar que pode ser feliz. A felicidade dela implica a infelicidade da sua mãe e/ou do seu pai, dos avós ou irmãos que em tempo teve. Concordo com o Dr. Luís Villas Boas – diretor do Centro de Acolhimento Refúgio Aboim Ascensão – quando afirma que as instituições têm de ter capacidade para preparar estas crianças para uma futura integração numa família e, para isso, é preciso ter técnicos de várias áreas. Não é isso que se passa. Em particular o acompanhamento psicológico torna-se fundamental para que a criança faça o seu “luto”, compreenda, numa primeira fase, porque é que foi retirada da sua família biológica e colocada em instituição de acolhimento; depois porque é que o juiz decidiu que ela devia ser adotada. A criança tem de sentir que a adoção é o melhor caminho para ela e que ela tem o direito de ser feliz, e que essa felicidade passa por uma nova família. Que uma nova mãe não significa que ela não possa pensar ou mesmo gostar da sua “verdadeira mãe”. Pode, claro que sim! Mas este é um processo gradual e, como diz o Dr. Villas Boas, é preciso a intervenção de várias áreas: boas equipas nas áreas educativa, social e psicologia. E nem todos os centros de acolhimento estão munidos destas equipas. E a criança, aquela criança que vai ser adotada, lida com todos os seus sentimentos, medos, fantasmas e expetativas sozinha ou com um acompanhamento pontual, pouco significativo.

Depois chega o dia em que vai para a nova família, a sua nova casa, os novos pais, a nova escola, os novos amigos. Tanta coisa nova! Tanto desconhecido, tanto medo, tanta saudade…

E agora pergunto: qual é a criança que não desafia a autoridade do adulto e não põe à prova os seus limites? Nenhuma, todas o fazem! A criança adotada não é exceção. Mas há uma grande diferença, perante um filho biológico: enquanto este (numa família estruturada) sabe, sempre soube e sempre sentiu que é amado; um filho adotivo não sabe, não sente, não tem essa certeza; pelo menos numa fase inicial do processo de adoção. Como tal, testa, põe à prova o adulto, desafia-o a provar que realmente o ama, que realmente o quer. E muitas vezes tem um raciocínio deste género: “se tu me amas vais aturar tudo de mal que eu faça” ou, por outro lado “tu não me amas e eu vou provar que isso é verdade”. E dessa forma a criança desafia, desacata, provoca discussões, cria desilusões. Nem todos os processos de adoção decorrem desta forma, obviamente; mas muitos espelham fielmente esta realidade.

Apresento-vos uma outra notícia, do Jornal Público (retirado do blog crianças a torto e a direitos), do dia 30 de Junho deste ano que aborda a formação que os candidatos adotantes têm obrigação de frequentar em que, um dos objetivos é desfazer ideias feitas que os candidatos possam ter sobre o que é a adoção e adequar as suas expetativas à realidade. Para que cada um esteja neste processo de forma realista (Luís Santos, Psicólogo). Este artigo refere a questão que apresentei – de a criança levar os pais ao limite – através de exemplos reais. Entre eles, este: “Há crianças que dizem: eu sei que vão abandonar-me. Quando é que vai ser? É preciso eu partir o quarto todo?”. Como salienta a psicóloga Ana Nascimento é bom ter a noção de que uma vinculação absolutamente segura pode levar dois anos a construir-se. Claro que nem todas as crianças têm este perfil e que situações como esta não são uma constante. Mas é de fato importante os candidatos terem a consciência que a adoção é um processo e que, no seu decorrer, há momentos bons, harmoniosos, mas há igualmente situações e momentos difíceis, dolorosos.

E um grande handicap existe nos processos de adoção: ao receber a criança no seu seio familiar os adotantes ficam, na maior parte das vezes, entregues a si próprios, não têm ninguém a quem pedir ajuda! Mesmo que haja disponibilidade dos elementos da equipa de adoções (o que dificilmente há pois estão exacerbados de trabalho e processos), torna-se muito difícil para um pai e/ou uma mãe adotivos assumirem as suas dificuldades, o seu (aparente) fracasso; principalmente perante o técnico que avalia o processo e que tem poder para terminar a adoção. Por outro lado, podem também estar disponíveis os elementos da equipa técnica da instituição de acolhimento da criança, aqueles que a conhecem e têm algumas estratégias para poder partilhar com os pais. Mas pode ser igualmente difícil assumir que não se está a ser capaz…

Desta forma, as dificuldades vão-se acentuando, os problemas mantêm-se e tornam-se ainda mais frequentes e intensos. Até que pode chegar a um ponto de rutura, de desistência, de incapacidade total de lidar com a situação. É legítimo os pais adotantes sentirem as suas expetativas frustradas, quem não sente? Todo o pai e toda a mãe não adotante as sente! Todos sofremos desilusões, todos esperamos mais e melhor. Tal é permitido e aceite. O que não pode ser aceite é não assumirmos esse fato e não arranjarmos alternativas, não superarmos a situação e lidar, da melhor forma possível, com o inesperado, com o diferente do que pretendíamos.

Assim, antes de tirarmos conclusões precipitadas quando analisamos as tais 108 crianças que foram devolvidas, pensemos um pouco no que está por detrás desses números, no sofrimento das crianças, mas também no sofrimento dos candidatos adotantes que se viram impedidos de (finalmente) realizar o seu sonho de serem pais/mães, que foram incapazes de lidar com aquela criança ou o inverso. Acredito que, numa percentagem das 108 crianças há alguns destes casos que referi. Por esses fico triste principalmente porque, caso tivessem tido mais apoio o processo poderia ter tido um final feliz. Para todos.

E, para terminar, quero apenas acrescentar isto: e quantas dessas 108 crianças foram novamente adotadas? Eu conheço duas, e estou tão feliz por elas!!!!!

Referências: Notícia do Correio da Manhã: link ; Notícia do Público: link

Como sugestão bibliográfica, deixo o livro que falei neste artigo: “A aventura da Adopção”, de Karen Foli e John Thompson. Entre outros temas no âmbito da adoção, o livro aborda a questão da Depressão pós-adoção.

 
3 Comentários

Publicado por em 19 de Outubro de 2011 em Adoção

 

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3 responses to “A “devolução” de crianças adotadas

  1. Maus Tratos na Infância

    20 de Outubro de 2011 at 23:33

    Obrigada pelo seu comentário Filipa. Realmente é um processo bastante complexo, para todas as partes envolvidas. São uns heróis os pais adotantes e filhos adotados que ultrapassam todas as dificuldades “apenas” com os seus recursos internos.

     
  2. Filipa Sampaio Mineiro

    20 de Outubro de 2011 at 21:15

    Muito bom!!! É a primeira vez que leio algo sobre o tema das “devoluções” de crianças onde não se acusam abusivamente os pais adoptantes. Concordo com tudo o que disse. Não me canso de tentar explicar às pessoas que não é um processo fácil e muito pouco acompanhado pelas equipas técnicas. Estes pais sentem-se sozinhos e por vezes não conseguem….
    Claro que também existem as outras situações, mas não se deve generalizar.
    Muitos parabéns!!
    Filipa Sampaio Mineiro

     
    • Sara Alves

      30 de Setembro de 2013 at 22:29

      Olá, boa tarde!

      Chamo-me Sara Alves e sou estudante de Mestrado em Psicologia Clinica e da Saúde do Instituto Jean Piaget de Viseu e estou a fazer a minha dissertação com o tema: “Conjugalidade de Casais em processo de Adoção” e precisava de casais que estejam em processo de adoção (nas diversas fases) e que estejam dispostos a preencherem um pequeno Protocolo de Investigação (contém a versão para o género feminino e para o género masculino).

      Se quiserem participar, é muito simples, basta comunicaram-me (via mail ou deixar mensagem)!

      Contato de email é: sara_alves@msn.com

       

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