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Crescer Vazio | Pedro Strecht

09 Ago

Pedro Strecht é médico psiquiatra da infância e adolescência e tem larga experiência profissional no acompanhamento de crianças e jovens com perturbações emocionais, em particular as causadas por privações, abandono(s) e/ou maus tratos.

O fantástico livro Crescer Vazio: repercussões psíquicas do abandono, negligência e maus tratos em crianças e adolescentes, teve a sua primeira publicação em 1998, com várias reedições: em 2002 foi publicada a sua 4ª edição, revista e aumentada (Editora Assírio & Alvim).

Pela escrita fluente, adjetivada e tão eficazmente descritiva, ao lermos este livro somos envolvidos nas histórias reais que Strecht nos relata. Considero este livro intemporal. Apesar de ter sido editado pela primeira vez à 13 anos, ao ler as histórias – em particular a do capítulo 3 Casinha de Chocolate, Trabalho com crianças de Instituições, por ser a minha área profissional – tenho a sensação que o autor conheceu algumas das “minhas” crianças ou jovens. Foi com bastante agrado que vi a minha crença pessoal e profissional ser validada por este reconhecido pedopsiquiatra: o acolhimento institucional é reparador não somente para a criança mas também para a família. Nós trabalhamos com a criança e para a criança, mas sempre com o pressuposto do retorno à família. Assim sendo, temos de reparar também a família, para que esse retorno seja viável e um sucesso. Caso não seja possível decidir pelo retorno, então alguém (entenda-se equipa) deve continuar a tentar reparar a família: ao seu nível individual, relacional e social. Mas isso é tema para novo artigo…

O acolhimento institucional é uma medida a ser aplicada como último recurso, quando todas as outras medidas já se mostraram inadequadas para remover o perigo em que a criança/jovem se encontra. Assim, o acolhimento institucional mostra-se, para a criança, como uma alternativa mais saudável, a vários, senão a todos os níveis (psicológico, emocional, físico, relacional,…) a médio prazo, sendo que em alguns casos é no imediato. As crianças acolhidas vão preenchendo o seu vazio com autoconceitos e autoestima positivos, com modelos relacionais positivos que vão, aos poucos, promover na criança o sentimento de confiança. É nas instituições de acolhimento que muitas delas “reaprendem a viver e ter alegria nisso mesmo” (p. 90). Para trás vai ficando o sentimento de culpabilidade muitas das crianças carregam consigo. Além da culpa, muitas delas sentem também uma imensa necessidade em reparar os seus pais, como diz Strecht “pôr bons os pais doentes” (p. 87). Esta capacidade reparadora do acolhimento institucional é tanto mais eficaz quanto melhores condições a Instituição tiver. E essas melhores condições passam não só pela estrutura física, mas também pelo rácio adulto/criança e por um acompanhamento especializado e multiprofissional, sendo imprescindível acompanhamento psicológico individual, grupal e, para alguns, pedopsiquiatria. Mas, acima de tudo AFETO. Termino este artigo com um ditado medieval francês, relacionado com o afeto. Consta no prefácio deste livro, escrito por Richard R. Rollinson, Diretor da Mulberry Bush School (uma das Instituições londrinas onde Pedro Strecht frequentou estágio):

(…) while we can cure only sometimes, we can relieve often and comfort always, if we but keep on trying

(tradução: só podemos curar às vezes, aliviar algumas, mas confortar sempre, se soubermos ser perseverantes).

 

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